domingo, 5 de janeiro de 2014

Os demônios - (The devils) - 1971



Por Jason

Os demônios, dirigido por Ken Russell (de Tommy, falecido em 2011) é baseado no livro de não ficção de Audous Huxley, Os demônios de Loudun, que por sua vez é baseado em um história real ocorrida na cidade francesa de Loudun, no século XVII, quando freiras em um monastério começaram a agir como se estivessem possuídas por demônios. De antemão, não é um filme para qualquer espectador. Polêmico, estranho e difícil, é sem dúvidas um filme controverso e bizarro.

A trama começa com a chegada de um padre, Grandier, a Loudun. O homem é um pecador e não honra a atividade de pároco, se envolvendo com todo tipo de mulher, mas mesmo assim muito popular - embora a população o acuse de ter um filho ilegítimo e ele seja perseguido por um caso amoroso. A chegada dele deixa as freiras completamente loucas, incluindo a madre reverenda interpretada por Vanessa Redgrave. Com um problema na coluna e pescoço torto tal qual o corcunda de Notre Dame, a mulher é sexualmente frustrada, neurótica e parece entrar em paranoia ou esquizofrenia ao ver o homem. Quando reza, transforma em suas visões o padre em Jesus Cristo enquanto o deseja sexualmente e se pune por isso. A coisa se complica quando as outras irmãs parecem sofrer do mesmo mal, enquanto o padre se afasta da igreja para se envolver com a pobre Madeleine, que exibia inocentemente o desejo de ser freira, mas desistiu por ser hostilizada pela madre e por decidir concretizar seus desejos carnais com o padre.

Para acabar com a loucura da madre superiora, é feita uma sessão do exorcismo com um outro padre, o Mignon e seu ajudante, que querem afastar Grandier da cidade. Ambos desequilibrados, veem a oportunidade de torturar o padre Grandier e exorcizar a freira, a qual é forçada a sofrer um estupro com a desculpa de libertá-la das forças demoníacas. No auge da histeria, as freiras são levadas para serem sacrificadas acusadas de estarem possuídas pelos demônios (a intervenção dessa Inquisição só piora as coisas, pois todo mundo passa a ser julgado e castigado como bruxa ou possuído pelas forças do mal). Todas elas ao final são poupadas mas acabam numa festa como se fossem prostitutas, em uma orgia enlouquecida, se masturbando com objetos religiosos, mantendo relações sexuais entre si e com os padres, como se realmente estivessem num surto violento de possessão demoníaca. O lugar, antes sagrado, vira uma mistura de manicômio com casa de prostituição. 

Grandier é torturado para que confesse que é um bruxo mas é queimado na fogueira da Santa Inquisição. As freiras do convento alegaram que o padre havia invocado o demônio Asmodeus, para que elas fossem forçadas a cometerem atos sexuais e por consequência pecaminosos com ele. No julgamento do padre pelos inquisidores, que o acusaram de bruxaria, satanismo e todo tipo de coisa ruim, uma das provas teria sido um documento que assinado por ele, por Satã e por vários outros demônios. Dá para se ter uma ideia da alienação da população naquela época com o caso porque a sociedade francesa daquele século era um circo. 

Como descreve Aldous no livro, perto da cidade de Loudun se penduravam forcas e roldanas com cadáveres comidos por lavas que ali apodreciam: "Dentro de seus muros se encontravam as habituais ruas sujas, a usual gama de aromas, desde o de fumaça de lenha até o de excrementos, desde o das aves de curral até o do incenso, desde o de pão assando-se até o de cavalos, porcos e suja humanidade". A população era dividida entre catolicismo e protestantismo. O rei era um travesti e matava protestantes vestidos de urubus como se fosse um esporte e gostava de fazer apresentações como se estivesse em uma boate gay. Logo no começo, por exemplo, a igreja, representada pelo seu cardeal no meio de toda a apresentação de baile carnavalesca do rei, sela seu compromisso com o estado. A peste vitimava milhares de pessoas, jogadas em valas como resto de lixo e queimadas para que o surto não se espalhasse. Tudo era exagerado, histérico, neurótico e desequilibrado. O mais puro caos - como o filme aqui citado.

Loudun pode ter sido um grande - e grave - exemplo de histeria em massa e um caso em que a Igreja, a religião e o governo acabam dominando a opinião pública através da repressão. Não se sabe o quanto de ficção e o quanto de realidade houve no caso, mas os historiadores alegam que houve um plano mirabolante para queimar Grandier com a ajuda das freiras, já que ele era uma ameaça não só a Igreja mas ao estado por ser popular e Loudun era uma das últimas cidades independentes e livres (como Grandier grita, no filme, ao ser queimado, para que a população lute pela sua liberdade). Não houve nenhuma comprovação científica ou religiosa de que as freiras estivessem realmente possuídas ou que o próprio Grandier fosse um bruxo. O filme, contudo, resume o complicado caso à insanidade das freiras supostamente prostituídas pelos demônios, se estende desnecessariamente em cenas que não acrescentam nada em termos de roteiro, de construções de personagens, de discussões politicas ou religiosas, que poderia fazer fervê-lo, apelando para os momentos de nudez e desequilíbrio das freiras. Ao final, o espectador acaba se valendo mais das interpretações nervosas de Vanessa Redgrave e de Oliver Reed e do fato interessante em si do que do próprio filme.

Preste atenção: durante a cena do julgamento, os capuzes dos inquisidores, que nos remetem ao grupo Klu Klux Klan, numa clara alusão a repressão. 

Na parte em que o rei invade toda a orgia e sugere ter o poder de curar com um objeto supostamente santo e que na verdade não possui nenhum poder milagroso - para notar o nível de alienação da população.

Cotação: 2/5

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